Inteligência, informação e negócios para quem movimenta o varejo.
AnáliseVarejo

Varejo físico em 2026: Selic a 14% e inadimplência recorde criam um setor em duas velocidades

Supermercados avançam, mas móveis, eletro, construção e vestuário encolhem com crédito caro e 82% das famílias endividadas; recuperações judiciais viram sintoma.

Ponto de Venda

Varejo físico, expansão e omnichannel

· Atualizada em 15 de setembro de 2026, 14:58 · 6 min de leitura

CompartilharLinkedInXWhatsAppE-mail
Varejo físico em 2026: Selic a 14% e inadimplência recorde criam um setor em duas velocidades
Comércio na Rua 25 de Março, em São Paulo. Foto: User:Charlesblack / Wikimedia Commons (Public domain)

O varejo físico brasileiro chega ao último quadrimestre de 2026 com a Selic em 14% ao ano, 82% das famílias endividadas e a inadimplência do crédito no maior nível da série histórica do Banco Central. O resultado é um setor em duas velocidades: supermercados e itens essenciais avançam, enquanto móveis, eletro, construção e vestuário, que dependem de crédito, encolhem e empurram redes tradicionais para a recuperação judicial.

Contexto: o juro que não cai rápido o bastante

O Comitê de Política Monetária (Copom) cortou a Selic em 0,25 ponto percentual em 5 de agosto, para 14,00% ao ano, na quarta redução consecutiva de 2026, em decisão unânime. No comunicado, o Banco Central reconheceu que "tanto a inflação cheia quanto os núcleos desaceleraram", mas descreveu a atividade como em "moderação gradual", ainda com mercado de trabalho aquecido, segundo o Bora Investir (B3).

O comitê volta a se reunir nesta terça e quarta (15 e 16 de setembro), e a expectativa majoritária do mercado é de novo corte de 0,25 ponto, para 13,75%. Para o lojista, porém, o alívio é lento: com juros de dois dígitos desde 2022, o custo do crediário, do cartão e do capital de giro continua incompatível com a venda de bens duráveis a prazo.

O que dizem os números

O último dado oficial disponível do IBGE, referente a junho e divulgado em 13 de agosto, mostra o varejo restrito com alta de 0,5% sobre maio e de 2,9% sobre junho de 2025, com acumulado de 1,9% no ano, conforme a cobertura do InfoMoney. Mas o varejo ampliado, que inclui veículos e material de construção, recuou 1,0% no mês, e a média móvel trimestral do restrito ficou negativa (-0,3%).

A leitura por setor é o retrato das duas velocidades: hipermercados e supermercados subiram 1,1% no mês, enquanto material de construção caiu 3,5%, veículos e autopeças recuaram 1,5% e tecidos, vestuário e calçados perderam 2,6%.

Em julho, o Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA) apontou queda real de 1,4% nas vendas em relação a julho de 2025, o 14º mês consecutivo sem variação positiva, segundo a Cielo. Bens não duráveis cresceram 1,7% em termos reais; bens duráveis e semiduráveis caíram 4,8%. Em termos nominais, o e-commerce avançou 9,7% e o varejo físico, apenas 1,3%.

O consumidor: endividado e seletivo

A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) de agosto, divulgada pela CNC em 10 de setembro, mostra 82% das famílias com dívidas, sétimo mês consecutivo em patamar recorde, e 29,9% com contas em atraso. A parcela que declara não ter condições de pagar subiu para 12,5%, o maior nível desde fevereiro, de acordo com o Portal do Comércio.

O aperto é maior na base da pirâmide: entre famílias com renda de até três salários mínimos, 85,1% estão endividadas e 38,8% inadimplentes. "Estamos entrando no último trimestre do mesmo jeito que começamos o ano, com endividamento recorde e inadimplência crescente", resumiu José Roberto Tadros, presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac.

Do lado dos bancos, a nota de crédito do Banco Central referente a julho mostra a inadimplência total do sistema financeiro em 4,9%, recorde da série, e a das pessoas físicas em 5,81%, segundo o Suno Notícias. No crédito livre, a taxa média cobrada das famílias é de 60% ao ano.

Por que importa

Varejo de bens duráveis é, na prática, varejo de crédito. Quando o consumidor da classe C perde capacidade de assumir parcelas, a loja física de eletro, móveis e construção perde o motor de vendas e continua carregando aluguel, folha e estoque. Não é coincidência que agosto tenha concentrado os pedidos de recuperação judicial de Casas Bahia e Marabraz, nem que o Grupo Toky (Tok&Stok e Mobly) tenha citado juros e endividamento das famílias ao recorrer à Justiça em maio.

O levantamento do Monitor RGF-BIZDOC mostra 986 empresas de varejo em recuperação judicial ao fim do primeiro semestre, alta de 20,4% em doze meses, conforme reportou o Times Brasil. O macro pressiona todos; quem quebra é quem chega ao ciclo com dívida cara e loja grande demais.

Impacto para o mercado

  • Supermercados e atacarejo seguem como o formato mais resiliente, beneficiados pela desinflação de alimentos e pelo consumo de reposição.
  • Eletro, móveis e construção entram no fim do ano com estoques a serem reduzidos e redes menores: a própria Casas Bahia disse que vai operar "uma companhia menor, mais seletiva".
  • Indústria e distribuidores devem esperar renegociação de prazos, pedidos menores e maior risco de crédito no sell-in para redes médias.
  • Shopping centers e locadores tendem a absorver devoluções de lojas nos próximos meses, especialmente em formatos de grande área.

Próximos passos

Três datas definem o humor do setor até dezembro: a decisão do Copom desta quarta (16), a divulgação da PMC de julho e agosto pelo IBGE e a Black Friday, em 27 de novembro. Se a Selic seguir caindo 0,25 ponto por reunião, o efeito no crediário só será sentido em 2027. Até lá, a palavra de ordem no varejo físico é encolher para sobreviver.

Análise da coluna Ponto de Venda, produzida com apoio de IA e revisão editorial. Não constitui recomendação de investimento.

Este texto é análise e reflete a visão do autor. Não constitui recomendação de investimento.

Fontes

  1. Copom reduz Selic pela quarta reunião consecutiva; taxa vai a 14% ao anoBora Investir (B3) (5 de agosto de 2026)
  2. Varejo opera em duas velocidades: avança no essencial, mas recua nos bens a crédito (PMC junho/2026)InfoMoney (13 de agosto de 2026)
  3. ICVA: varejo tem queda de 1,4% nas vendas do mês de julhoCielo (27 de agosto de 2026)
  4. CNC: mais endividadas do que a média, famílias de menor renda lideram avanço na inadimplência em agosto (Peic)Portal do Comércio / CNC (10 de setembro de 2026)
  5. Inadimplência atinge maior nível da série histórica em julho, aponta Banco CentralSuno Notícias (28 de agosto de 2026)
  6. Varejo brasileiro chega a 986 empresas em recuperação judicial, alta de 20,4% em um anoTimes Brasil (19 de agosto de 2026)

Checagem editorial

  • ConfirmadaSelic em 14,00% ao ano após corte de 0,25 p.p. em 5 de agosto de 2026, quarta redução consecutiva
  • Confirmada82% das famílias endividadas e 29,9% inadimplentes em agosto/2026 (Peic/CNC)
  • ConfirmadaVarejo restrito +0,5% em junho ante maio e +2,9% ante junho/2025 (IBGE)
  • ConfirmadaICVA de julho/2026 com queda real de 1,4%, 14º mês sem variação positiva
  • ProvávelMercado espera corte para 13,75% na reunião de 15 e 16 de setembroProjeção de analistas; decisão ainda não divulgada no fechamento desta análise.

Perguntas frequentes

Qual é a taxa Selic em setembro de 2026?
A Selic está em 14,00% ao ano desde 5 de agosto de 2026, quando o Copom fez o quarto corte consecutivo de 0,25 ponto. O comitê se reúne novamente em 15 e 16 de setembro.
Quantas famílias brasileiras estão endividadas em 2026?
Segundo a Peic da CNC de agosto de 2026, 82% das famílias têm dívidas, 29,9% estão com contas em atraso e 12,5% dizem não ter condições de pagar.
Por que o varejo físico está em duas velocidades?
Itens essenciais, como alimentos, crescem com a desinflação, enquanto bens duráveis (móveis, eletro, construção, vestuário) recuam porque dependem de crédito, que está caro e com inadimplência recorde.

Nesta matéria

#varejo físico#selic#inadimplência#consumo#recuperação judicial#ibge

Morning Brief

Receba o resumo do varejo todos os dias às 7h.

Gratuito. Sem spam. Cancele quando quiser.